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Ludmilla entra com naturalidade no pagode em EP que transita entre a festa e a sofrência

Como Ludmilla prometeu, a cantora lança disco de pagode nesta sexta-feira, 24 de abril, dia do 25º aniversário dessa cantora e compositora fluminense de funk pop.

Promovido com sincronizada live programada pela artista para as 18h de hoje, Numanice é EP com seis músicas – quatro inéditas autorais e duas regravações nada óbvias de composições alheias – em que Ludmilla entra com naturalidade no pagode em trânsito nada surpreendente para quem conhece a história dessa artista que, ainda criança, já soltava a voz nas rodas de samba armadas pela família.

Sim, antes de ficar (quase) tudo dominado pelo funk nas comunidades e bairros das periferias fluminenses, o pagode era a trilha preferencial do povo brasileiro.

De início, a trilha foram os discos de cantores identificados com o samba, como Beth Carvalho (1946 – 2019) e Martinho da Vila. Depois, nos anos 1980, foi o pagode da geração Cacique de Ramos liderada por Fundo de Quintal e Zeca Pagodinho.

A partir da década de 1990, entrou na roda o pagode mais genérico, de grupos que inseriram teclados na batida do samba, com Raça Negra puxando o movimento que chegou ao século XXI com verniz pop e atualmente garante a fama de cantores como Belo, Thiaguinho e os mencionados Dilsinho e Mumuzinho.

É desse pagode que descende o som feito por Ludmilla no EP Numanice, produzido por Rafael Castilhol, músico que toca teclados e percussão na banda que inclui instrumentistas habituados a tocar com pagodeiros como os mencionados Dilsinho, Ferrugem e Mumuzinho.

Mesmo miscigenado, o baticum resiste. Cada faixa do EP Numanice agrega seis ou sete percussionistas na ficha técnica. Basta ouvir o inédito pagode Cheiro bom do seu cabelo (Ludmilla) – declaração de amor da artista à mulher, Brunna Gonçalves – para detectar a base instrumental típica dos discos do gênero.



Em vez de apostar na mistura de samba com funk, Ludmilla apresenta disco tradicional de pagode. Em sintonia com o título Numanice (inspirado em hashtag recorrente em rede social de amigo da artista, Gustavo Pinheiro), a cantora deu voz a músicas que tendem a priorizar as boas vibrações. O que justifica a apropriação em ritmo de pagode da solar canção pop Um pôr-do-sol na praia (Lúcio Silva e Lucas Silva, 2019), gravada originalmente pela própria Ludmilla com Silva em single lançado em julho do ano passado.

Ode à liberdade e ao próprio pagode, Tô de boa (Ludmilla) também exemplifica bem essa vertente “numa nice” e serve para desanuviar o clima das faixas mais dolentes. Sim, tem também (um pouco de) sofrência no EP de pagode de Ludmilla, sobretudo na regravação de Te amar demais (Sodré, 2018). A faixa é introduzida no tom lacrimoso de balada, mas logo cai na cadência do samba de cepa mais trivial.

Música acertadamente escolhida pela gravadora Warner Music para ser o single promocional do EP, Amor difícil (Ludmilla) também remói a sofrência em letra autorreferente em que a personagem do pagode vai para as baladas tentar curar a ressaca afetiva, mas, se sentindo vazia entre “luzes, festa, sexo e drogas”, volta rendida para o amor difícil do título da composição inédita.

Não é por maldade – outro pagode inédito de Ludmilla, gravado com a cantora carioca Márvvila – ecoa o discurso hedonista do funk feminista que dá voz a mulheres indomadas pelo jugo machista da sociedade. No funk ou no pagode, Ludmilla continua empoderada.

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